Tome a Bahia pela cara seu nativo!
no umbigo.
Seu atrevido...
Quer conforto?
Quer abrigo?
Quer retiro?
Tome o PT “pelos peito”
e receba a sua esperança
esperança incandescente
na indecência nuclear
Fique com o seu Luís Eduardo
o herói Magalhães
para sempre.
Fique com seu metrinho
de metrô
que liga superfaturamento
a financiamento eleitoral.
Vá de Ivete, o seu ferry
na baía de todos os problemas,
à deriva de gestão oficial.
Receba o seu corte de gastos
no caixa
do supermercado.
Corte o cine,
e a navalha em sua carne. 
Corte o álcool,
corte o leite
e vá se drogar.
Vá se drogar!!!
seu baiano.
Passa a fome
você não come
e nem aciona a descarga.
O governo agradece a economia,
e você esmorece dia a dia.
Depois, vem sua polícia
e te mata.
A poesia “Tome a Bahia em sua cara” embora tenha um caráter de subjetividade, pois todo texto traz o estilo e percepção do autor, também, apresenta de forma objetiva sua análise sobre a cidade de Salvador. O jogo armado pelas palavras é bastante objetivo, porém, o discurso é extremamente marcado pela ironia do “eu” enunciador para o “tu”, ou seja, a quem se destina o que foi produzido pelo sujeito discursivo. Tal ironia é materializada no enunciado do verso imperativo “Tome a Bahia pela cara seu nativo!”, e para dar sentido aos não-ditos deste enunciado, faz-se necessário questionar-se: essa é a Bahia de todos nós? É a Bahia que nós queremos?
A poesia tem como temática o panorama da política baiana e indissociável a historicidade desta política os desmandos e descasos dos políticos que fazem parte desta esfera em diferentes governos da Bahia, como se referem os trechos “Tome o PT pelos peito’, “Fique com seu Luís Eduardo o herói Magalhães”, nesse último trecho o alocutário terá que acionar a sua memória discursiva, para rememorar toda a história política que envolve a família Magalhães, para que assim possa construir o sentido embutido,ou seja, implícito neste verso, acerca do poder político que esta família exerceu e ainda exerce no nosso estado. Desde o grande chefe ACM até o neto ACM Neto.Tal poder associado á política Carlista. Na qual, ACM mandava e desmandava na Bahia chegando ao absurdo de modificar o nome do Aeroporto Internacional 2 de Julho para Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, desconsiderando a historicidade local em detrimento da eternização e valorização da imagem do seu filho morto, como afirmam os versos “ o herói Magalhães/ para sempre”
O verso citado anteriormente “Tome o PT pelos peito/” o sujeito discursivo no momento da enunciação, ou seja, no momento da fala utiliza elementos lingüísticos para dizer além dos não-ditos, esse é o PT que tanto nós queríamos? Um partido que tem por ideologia lutar pelas desigualdades sociais, favorecendo assim, melhores condições de vida para o povo. Isto realmente estar acontecendo? A população colocou este partido no poder depositando uma grande expectativa acerca de profundas mudanças no estado da Bahia, na esperança por dias melhores, como citam os versos “e receba a sua esperança/ esperança incandescente/ na indecência nuclear”. O enunciador apropria-se da língua para dizer que depois de um longo período mudou o partido, agora o partido que era de esquerda estar no poder, porém, a política desleal ainda persiste, como se apresenta nos seguintes versos “...que liga superfaturamento a financiamento eleitoral...”, “...na Bahia de todos os problemas/ à deriva de gestão oficial”.
A escolha lexical revela toda a revolta do sujeito discursivo acerca da incapacidade do cidadão baiano em reverter essa conjuntura política a qual está inserido, como expõe os versos “O governo agradece a economia, e você esmorece dia a dia”.
Nos trechos “Fique com seu metrinho/ de metrô” a escolha da palavra “metrinho”, já diz muito por si só, metrinho porque é alvo insignificante, pequeno, sem perspectiva finalização, a ironia marca o verso do poema diante da magnitude do projeto da construção de um metrô e seu resultado final tão vergonhoso e humilhante para a população de SSA que até o momento não se indignou, não foi às ruas, não foi à imprensa, está acomodada, como se tudo estivesse bem conduzido. O sujeito discursivo apresenta a passividade deste povo diante de quem detém o poder nas mãos e insiste em negar os direitos dos baianos, ironizando nos desvendados versos interrogativos, “Quer conforto?/ Quer abrigo?/ Quer retiro?”.
Outra problemática na compreensão dos sentidos do que está nas entre linhas do texto é a questão de que SSA tem um lazer de custo elevado, levando em consideração o baixo nível de poder aquisitivo da população, como se refere os versos “corte o cine/ e a navalha em sua carne”, ou seja, sinta na pele o descaso, pois essa cidade é voltada para o turismo, e por isso, nega para o cidadão baiano o direito do entretenimento. Como é ratificado nos versos “Vá de Ivete, o seu ferry/ na baía de todos os problemas” parodiando a frase “Na baía de todos os santos”, lembrando ao alocutário todos os problemas que ele terá de enfrentar caso decida fazer a travessia Salvador X Ilha de Itaparica, principalmente nos feriados prolongados.
Nos trechos “Vá se drogar!!!/ seu baiano.” é preciso acionarmos a nossa memória discursiva, tendo como base a mídia televisiva ou os jornais de grande circulação, acerca dos dados das estatísticas das inúmeras mortes que ocorrem em bairros marginalizados e ou da periferia de Salvador. E indissociável a estas mortes estar o perfil da maioria destes jovens: negros e pobres. Tendo as drogas um elemento crucial desta problemática. Recentemente a campanha contra o craque trouxe o seguinte enunciado “Craque é caixão ou cadeia”, como ratificam os versos da poesia em análise “Depois, vem a sua policia/ e te mata.” Assim, o discurso produzido por esta campanha naturaliza o que não é natural. O jovem não poderá se desvencilhar do submundo das drogas, já esta determinado na materialidade do enunciado que ele morrerá.
Autoria da análise: Nilda Sandes, Paula Sousa e Rosana Santos